O etarismo afeta milhões de brasileiros silenciosamente. Segundo a OMS, um a cada seis idosos já sofreu algum tipo de violência, sendo o etarismo uma delas. Este problema cresce em importância quando observamos que os idosos correspondem a quase 15% da população brasileira, e este número só tende a aumentar. Em pouco mais de dez anos, a porcentagem de pessoas idosas no Brasil saltou de 10,8% para 15,8%.
Mas afinal, o que é etarismo? Trata-se da discriminação baseada na idade, principalmente contra pessoas idosas. Apesar de ser considerado crime no Brasil, o preconceito etário continua presente em diversos setores da sociedade. O impacto é tão significativo que, em 2022, o país registrou um recorde de 4 milhões de pessoas idosas trabalhando na informalidade, um aumento de 36,6% desde o início da pandemia.
Neste artigo, vamos explorar como o etarismo se manifesta em diferentes ambientes, suas consequências para os indivíduos e para a sociedade brasileira, e quais medidas podemos tomar para combater este tipo de discriminação. Hoje, com 27% da população brasileira acima dos 50 anos, entender e enfrentar o etarismo torna-se não apenas uma questão de justiça social, mas também uma necessidade para construirmos uma sociedade mais inclusiva.
O que é etarismo e por que ele é um problema social
A discriminação por idade é uma realidade que muitos brasileiros enfrentam diariamente. Precisamos, inicialmente, entender o significado desse fenômeno e suas diversas denominações.
Etarismo, idadismo e ageísmo: termos e significados
O termo original “ageism” foi cunhado em 1969 pelo gerontologista americano Robert Butler para se referir aos estereótipos (como pensamos), preconceitos (como sentimos) e à discriminação (como agimos) em relação à idade. No Brasil, utilizamos principalmente três termos para esse fenômeno: etarismo, idadismo e ageísmo.
O etarismo deriva da palavra “etário”, que vem do latim “aetas” (idade). Já idadismo é uma tradução mais direta do inglês, incluindo a palavra “idade” em sua formação. O ageísmo, por sua vez, é simplesmente a forma aportuguesada do termo original em inglês. Apesar das diferentes nomenclaturas, todos se referem ao mesmo problema: a discriminação baseada na idade.
Como o preconceito por idade se manifesta no Brasil
No Brasil, o etarismo se manifesta em diversos contextos sociais. Segundo a Pesquisa Idosos no Brasil, 81% das pessoas com mais de 60 anos concordam que existe preconceito contra idosos no país, um percentual praticamente idêntico ao registrado em 2006 (80%).
Este preconceito aparece de formas variadas: 18% dos idosos afirmaram terem sido discriminados ou maltratados em serviços de saúde, enquanto 19% declararam ter sofrido algum tipo de violência física ou verbal. No ambiente de trabalho, profissionais 50+ representam apenas 5,2% do quadro funcional das grandes empresas, apesar de pessoas com 60 anos ou mais corresponderem a 15% da população brasileira.
Por que o etarismo é considerado uma forma de discriminação silenciosa
O etarismo é considerado silencioso porque, diferentemente de outras formas de discriminação, muitas vezes passa despercebido ou é tratado como brincadeira. Além disso, está profundamente arraigado na sociedade, manifestando-se até mesmo nas leis, como ocorria com as restrições ao regime de bens para pessoas com mais de 70 anos.
Essa discriminação silenciosa causa danos significativos. De acordo com a OMS, 96% dos estudos que investigaram a conexão entre discriminação etária e saúde mental encontraram impactos negativos. Estima-se que, globalmente, cerca de 6,33 milhões de casos de depressão estejam relacionados à discriminação etária. Além disso, o etarismo contribui para o isolamento social, aumenta o risco de violência e abuso, e pode levar à exclusão do mercado de trabalho.
Como destaca o professor Egídio Dórea, especialista no tema, o etarismo constitui “o mais universal e frequente dos preconceitos, porque não depende de cor, nacionalidade, renda, orientação sexual ou religião”.
Onde o etarismo acontece e como ele afeta a vida das pessoas
O preconceito etário penetra diversas esferas sociais, impactando significativamente a qualidade de vida dos idosos. Vamos analisar como esse fenômeno se manifesta em diferentes ambientes e suas consequências.
Família: desvalorização e infantilização de idosos
No ambiente familiar, o etarismo se apresenta através da infantilização, superproteção e desconsideração da autonomia da pessoa idosa. Dados alarmantes mostram que mais de 60% dos casos de violência contra idosos ocorrem nos próprios lares. Dois terços dos agressores são filhos, que agridem mais que filhas, noras, genros ou cônjuges. As denúncias feitas pelo Disque 100 indicam que a violência psicológica tem percentual mais alto que a física.
Neste contexto, observa-se famílias onde há desarmonia, falta de respeito e não reconhecimento de limites, gerando relacionamentos carregados de frustrações. O excesso de zelo também é prejudicial, tornando o idoso progressivamente dependente e sobrecarregando a família com tarefas que, muitas vezes, o próprio idoso poderia realizar.
Trabalho: exclusão de profissionais experientes
No mercado de trabalho, o etarismo representa um dos piores desafios para profissionais mais velhos. Uma pesquisa do Grupo Croma revelou que 86% dos trabalhadores com mais de 60 anos já enfrentaram algum preconceito. Os dados são ainda mais preocupantes: 24% dos trabalhadores já foram demitidos por conta da idade e 78% das empresas se consideram etaristas.
Ademais, profissionais acima de 50 anos representam apenas 5% da força de trabalho brasileira, apesar de 37,7 milhões de idosos estarem aptos a contribuir para o mercado. Consequentemente, cerca de 1,4 milhão de pessoas com mais de 50 anos estão desempregadas no país.
Saúde: diagnósticos baseados apenas na idade
Na área da saúde, o etarismo se manifesta quando profissionais desautorizam a queixa do idoso ou a associam simplesmente à idade, alegando que determinados sintomas são normais para aquela faixa etária. Uma revisão sistemática em 2020 mostrou que em 85% de 149 estudos, a idade determinou quem recebeu certos procedimentos ou tratamentos médicos.
Educação: preconceito contra idosos em ambientes acadêmicos
No ambiente educacional, o etarismo se expressa pela exclusão dos círculos sociais, distanciamento em sala de aula e posturas hostis por parte de estudantes mais jovens. Dados da Universidade de São Paulo revelam que apenas 2,58% dos ingressantes em 2022 tinham 40 anos ou mais. No entanto, estudos mostram que a entrada nos cursos de graduação pode ser uma experiência muito positiva para os mais velhos, tornando a vida mais ativa, aumentando o ciclo de interações sociais e, em alguns casos, retardando doença s degenerativas.
Consequências do etarismo para a sociedade
As repercussões do etarismo vão muito além do impacto individual, afetando toda a sociedade brasileira. Este tipo de discriminação gera custos sociais e econômicos significativos, além de comprometer o bem-estar coletivo.
Impactos na saúde mental e autoestima
O preconceito etário prejudica profundamente a saúde psicológica das pessoas idosas. Segundo a OMS, aproximadamente 96% dos estudos que investigaram a relação entre discriminação etária e saúde mental encontraram impactos negativos. Estima-se que, globalmente, cerca de 6,3 milhões de casos de depressão estejam diretamente relacionados à discriminação por idade.
No Brasil, pessoas que sofrem etarismo frequentemente desenvolvem ansiedade, depressão, sentimento de inferioridade e falta de confiança em si mesmas. Conforme destaca a presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia, o etarismo aumenta a cada ano que a pessoa envelhece, afetando progressivamente sua saúde mental.
Isolamento social e perda de autonomia
Quando discriminados, os idosos tendem a se isolar socialmente, evitando ambientes onde não se sentem valorizados. Esse isolamento intensifica a sensação de solidão e pode desencadear comportamentos de risco que favorecem o aparecimento de doenças.
A perda de autonomia também é uma consequência direta, uma vez que muitos idosos internalizam os estereótipos negativos sobre o envelhecimento e passam a se enxergar como incapazes. Para muitos, a informalidade no trabalho representa não apenas uma necessidade financeira, mas também uma forma de se manterem ativos e socialmente engajados.
Desigualdade no acesso a oportunidades
O etarismo aprofunda as desigualdades sociais já existentes. No mercado de trabalho, a discriminação etária tem origens múltiplas, incluindo estereótipos, estrutura social desigual e a lógica capitalista das empresas. A informalidade entre trabalhadores mais velhos aumentou consideravelmente após a pandemia, atingindo 4 milhões de pessoas.
A desigualdade é ainda mais acentuada quando combinada com outros fatores. Por exemplo, a chance de uma pessoa com menos de quatro anos de escolaridade precisar de cuidados é três vezes maior do que alguém com nível superior. Igualmente, pessoas não brancas e mulheres têm maior probabilidade de necessitar de assistência na velhice.
Dados da OMS e IBGE sobre envelhecimento e discriminação
Segundo projeções do IBGE, em 2070 os idosos representarão quase 40% (37,8%) da população brasileira, totalizando 75,3 milhões de pessoas. Este envelhecimento populacional expõe desigualdades persistentes, como evidenciado pelos dados de desemprego: a taxa de desocupação é maior para mulheres (10,8%), pessoas pretas (11,3%) e pardas (10,1%).
A OMS estima que uma em cada duas pessoas no mundo tenha atitudes discriminatórias que pioram a saúde física e mental dos idosos. Além disso, a discriminação etária gera custos bilionários às economias. Nos Estados Unidos, um estudo de 2020 mostrou que o etarismo levou a custos anuais excessivos de US$ 365,34 bilhões para as oito condições de saúde mais custosas.
Como combater o etarismo e promover o respeito intergeracional
Combater o etarismo exige esforços coordenados em múltiplos níveis da sociedade. As estratégias para promover o respeito intergeracional devem começar cedo e permear todas as estruturas sociais.
Educação e conscientização desde a infância
A educação é fundamental para eliminar preconceitos etários. O Estatuto da Pessoa Idosa determina que os currículos escolares devem incluir conteúdos sobre o processo de envelhecimento e valorização da pessoa idosa. Este tipo de abordagem desde a infância contribui para formar cidadãos mais conscientes e respeitosos. Além disso, a convivência entre diferentes gerações nas escolas favorece a troca de conhecimentos, preservando a memória e identidade culturais.
Políticas públicas e leis de proteção
No Brasil, o Estatuto da Pessoa Idosa (Lei 10.741/2003) estabelece importantes proteções legais. A lei considera crime discriminar pessoas idosas, com pena de reclusão de 6 meses a 1 ano e multa. Recentemente, a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa aprovou a criação do Programa Nacional de Conscientização, Prevenção e Enfrentamento ao Etarismo. Esta iniciativa prevê atendimento psicológico e jurídico gratuito às vítimas, além de canais de denúncia e capacitação de servidores públicos.
Inclusão de idosos no mercado de trabalho
Entre 2012 e 2024, o número de idosos ocupados aumentou quase 69%, chegando a 8,6 milhões. Porém, a informalidade atinge 53,8% dos trabalhadores com mais de 60 anos. Para reverter essa situação, especialistas recomendam políticas de recrutamento inclusivo, programas de mentoria reversa e oportunidades de requalificação profissional. Empresas estão começando a valorizar equipes intergeracionais, reconhecendo benefícios como equilíbrio emocional e experiência.
Valorização da experiência e da sabedoria
A experiência acumulada pelos idosos pode ser um diferencial competitivo no ambiente profissional. Centros de Referência da Assistência Social oferecem atividades que estimulam a convivência e o protagonismo da pessoa idosa. É crucial reconhecer que a velhice não deve ser vista como sinônimo de inatividade, mas como uma fase onde ainda se pode explorar novas oportunidades e realizar projetos pessoais.
Campanhas de mídia e representatividade positiva
Campanhas como “Seu Auge é Hoje” do Boticário e “Quem disse que é tarde?” buscam combater estereótipos e valorizar a beleza na maturidade. A representação positiva de pessoas idosas na mídia contribui para questionar padrões que associam beleza apenas à juventude. Ademais, idosos têm criado perfis em redes sociais, compartilhando vivências e contestando o etarismo. A representatividade adequada é fundamental, pois 82% das mulheres acreditam que marcas não representam mulheres maduras de maneira real e posit iva.
Promover o respeito intergeracional não é apenas uma questão de justiça social, mas também uma necessidade para uma sociedade que envelhece rapidamente.
Conclusão
Evidentemente, o etarismo representa um desafio significativo para a sociedade brasileira, afetando milhões de pessoas silenciosamente em suas vidas cotidianas. Este preconceito, que permeia ambientes familiares, profissionais, de saúde e educacionais, causa danos profundos tanto individuais quanto coletivos. A discriminação etária não apenas deteriora a saúde mental e autoestima dos idosos, mas também promove o isolamento social e aprofunda desigualdades já existentes.
Nossa sociedade enfrenta uma transformação demográfica acelerada, com projeções indicando que quase 40% da população brasileira será composta por idosos até 2070. Portanto, combater o etarismo torna-se não apenas uma questão de justiça social, mas também uma necessidade econômica e cultural. A valorização da experiência e sabedoria das pessoas maduras beneficia todos os setores sociais e enriquece nosso convívio intergeracional.
Medidas efetivas contra o etarismo já começaram a surgir, desde mudanças legislativas até iniciativas empresariais de inclusão. Contudo, o caminho para uma sociedade verdadeiramente inclusiva ainda é longo. Precisamos intensificar a educação sobre o envelhecimento desde a infância, fortalecer políticas públicas de proteção aos idosos e promover representações positivas da velhice na mídia.
Finalmente, cabe a cada um de nós questionar preconceitos etários internalizados e adotar uma postura mais respeitosa com pessoas de todas as idades. Afinal, o envelhecimento é um processo natural que todos experimentaremos. Ao construirmos hoje uma sociedade que valoriza seus idosos, estamos preparando um futuro mais digno e acolhedor para nós mesmos. O respeito intergeracional, assim, constitui não apenas um ato de empatia, mas também um investimento em nosso próprio futuro.
PERGUNTAS FREQUENTES
1. O que é etarismo?
É a discriminação ou preconceito contra pessoas por causa da idade, especialmente idosos.
2. Etarismo é crime no Brasil?
Sim, o Estatuto do Idoso criminaliza discriminação contra pessoas com 60 anos ou mais.
3. Quais são exemplos de etarismo?
Negar emprego por idade, tratamento infantilizado, exclusão de decisões, piadas sobre velhice.
4. Como denunciar etarismo?
Pelo Disque 100, delegacias especializadas, Ministério Público ou Defensoria Pública.
5. Como combater o etarismo no dia a dia?
Questione estereótipos, inclua idosos em conversas, valorize sua experiência, denuncie discriminações.
