Até nas pequenas manias, a saudade encontra um jeito de nos fazer
Existe um espaço vazio na rotina que antes era preenchido sem que a gente nem percebesse. É o silêncio no meio da tarde, a ausência daquele comentário engraçado sobre o programa de TV ou a falta daquela mania tão particular que, na convivência, às vezes nos tirava do sério, mas que hoje arrancaria um sorriso. Encontrar uma mensagem de conforto com leve humor para a saudade que fica da rotina de quem amamos é um desafio, pois cada detalhe, por menor que fosse, compunha a trilha sonora de nossos dias.
Quem diria que sentiríamos falta até daquela teimosia para escolher o cardápio do jantar ou da forma única como ele ou ela organizava as coisas, num sistema que só fazia sentido em sua própria cabeça? São essas pequenas lembranças, quase bobas, que agora se revelam como os verdadeiros tesouros. A saudade da rotina é a saudade da vida como ela era, pulsando nos gestos mais simples e autênticos. É lembrar do riso frouxo, daquela piada repetida que sempre tinha graça ou do jeito único de dançar pela casa ao som de uma música antiga.
Essas memórias são a prova de que a vida compartilhada foi rica, cheia de personalidade e afeto. Celebrar quem partiu é também sorrir dessas peculiaridades, desses momentos que eram tão “a cara” da pessoa. É nesse lugar, entre a lágrima e o riso, que a presença se torna eterna. Como disse o poeta, a saudade é a nossa forma de dizer que o passado valeu a pena e que o amor continua vivo, mesmo na ausência.
Como bem traduziu Mario Quintana, “Saudade é o que fica de quem não ficou.” Que essas lembranças da rotina, com todo o seu humor e simplicidade, possam aquecer o coração e trazer a certeza de que as melhores histórias são feitas de pequenos instantes, e essas ninguém pode apagar.
Que a paz encontre um caminho até seu coração, transformando a falta em uma doce e serena lembrança.